Caminho de Santiago

Uma experiência inesquecível

Desde o Antigo Testamento que há registo de peregrinações ao Templo de Jerusalém, lugar e sinal da presença salvífica de Deus no meio do Seu povo, e para o qual se dirigiam grandes números de pessoas especialmente por altura das festas judaicas (Páscoa, Festa das Tendas, Festa da Dedicação, e outras). O Evangelho de São João está marcado pelas peregrinações de Jesus, com quem se cumprem e redimensionam todos os conteúdos do tempo sacro de Israel, que passa a ser "cristificado" (Sousa, Mário "As Peregrinações de Jesus no Evangelho de São João, Revista do Inst. Superior de Teologia de évora, nr45, 2011). O próprio envio de Jesus é descrito pelo evangelista como uma descida e uma subida, uma peregrinação de Deus ao encontro dos homens com o convite a peregrinar na fé em Jesus. "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai senão por mim." João 14, 6


As primeiras peregrinações do Cristianismo datam do início do século IV (quando o Cristianismo foi tornado religio licita), e tinham por destino a Terra Santa (a mais conhecida e a primeira a deixar um relato da peregrinação é a histânica Erétria, muito provavelmente familiar de Teodósio I, imperador romano). Mais tarde, tiveram grande surto devido à pregação de São Jerónimo, responsável pela tradução da biblía do hebraico para o latim.

Na Península Ibérica, o ato de peregrinar e as peregrinações ocorrem desde os chamados tempos primitivos em que predominavam os costumes ou ritos pagãos. É facto que a existência de cultos religiosos são consubstancias ao homem e portanto anteriores a Cristo. Se procuramos relações de tudo com tudo, então tudo começa no Paleolítico, onde surgem as primeiras migrações humanas, talvez e inclusive antes, com as migrações dos primeiros hominídeos.
Segundo Alberto Solana de Quesada, o Caminho de Santiago não é produto de um fenómeno de sincretismo cultural, nem se impôs aniquilando as tradições anteriores como às vezes se censura ao cristianismo. O suposto caminho ancestral até Finisterra, se alguma vez existiu, não é antecedente reconvertido do Caminho de Santiago, mas sim o prolongamento da peregrinação até Finisterra em consequência da peregrinação a Compostela. O próprio ritual da queima de roupas, já se realizava no século XVI (com indícios de ser muito anterior), nos telhados da catedral, na chamada Cruz dos Farrapos, com um incinerador de pedra onde se fazia o cerimonial de conclusão da peregrinação queimando as velhas roupas como renovação física e espiritual. Não era um ritual pagão, mas sim cristão, documentado desde o século XVI mas com possibilidade de se tratar de uma cerimónia muito anterior, em que o cabido catedralesco proporcionava roupa nova aos peregrinos. Ao desaparecer este ritual, surge modernamente em Finisterra como um gesto romântico e atrativo, que nesse local nunca existiu, pois a queima em Finisterra de hoje em dia é um fenómeno recente que carece da antiguidade e de valor pioneiro e pagão que alguns lhe querem transmitir. Para Quesada, e um engano que se pode ver em programas de difusão atual e em guias para turistas incautos.

O início do Caminho de Santiago está bem acreditado como fenómeno sociocultural de identidade bem contrastada por diversos autores, cuja existência só se pode aceitar com o surgimento medieval da cidade de Compostela em torno da descoberta do sepulcro jacobeu, no primeiro terço do século IX. O Caminho de Santiago surge e orienta-se para um lugar, para uma personagem e para um significado, não para algo que antes foi uma coisa e a partir de verdadeiro momento se transforma em outra.

Após o achado sepulcral no início do séc IX, a notícia gerou grande impacto em toda Europa, de onde começaram a chegar peregrinos estrangeiros, movimento consolidado no séc. XII. Ao longo das rotas, estabeleceram-se relações e intercâmbios culturais, econômicos e sociais entre os diferentes povos da Europa, contribuindo para vertebrar a identidade cristã do continente. Santiago de Compostela, o ponto alto deste movimento, consolidou-se como arquidiocese ecentro artístico e religioso de primeira importância, uma cidade com intensa atividade comercial derivada da sua condição de cidade santa, onde seriam coroados os reis galegos e onde se desenvolveria a a escola literária galaico-portuguesa.

Os monarcas de Navarra, Aragão, Castela e Leão facilitaram a viagem a Santiago através da construção de pontes, reparação de caminhos, edificação de hospitais e, de modo geral, melhorando as infraestruturas das localidades por onde passava o caminho, concedendo diversos privilégios aos peregrinos, protegidos com editos reais que procuram repovoar, colonizar e desenvolver as terras atravessadas pela rota jacobeia.
Hoje, Compostela goza do privilégio especial graças à Bula Papal, concedida no séc. XII por Calixto II e mais tarde confirmado por Alejandro III: cada ano em que o 25 de julho, dia do Apóstolo Santiago, coincida com um domingo, poderão os católicos ganhar na Catedral de Santiago de Compostela, na plenitude, as graças do Jubileu.

Para ganhar o Jubileu é preciso cumprir algumas condições: visitar a Catedral de Santiago, mais precisamente o Túmulo do Apóstolo; rezar uma oracão por intencão ao Papa e receber os sacramentos da penitência e da comunhão, além do que se recomenda assistir à celebracão da Eucaristia. A verdadeira graça do Jubileu, caso sejam cumpridas todas as condições, é a indulgência plenária. Ou seja, todo fiel, havendo cumprido as condições exigidas, pode gozar para si próprio ou transferir para entes falecidos, as indulgências, tanto parciais como plenárias, o que em suma significa, o perdão dos pecados.

O advento do Ano Santo ou Ano Jacobeu, confere à peregrinação à Santiago de Compostela importância qualitativa e quantitativa, comparada por alguns cronistas árabes da Idade Média, com a peregrinação mulçulmana à Meca.Tornou-se o terceiro centro de peregrinação da cristandade, só superado por Roma e Jerusalém.Nos últimos séculos medievais as peregrinações a Compostela experimentaram algum declínio. A Peste Negra, frequentes guerras europeias, o Cisma do Ocidente - crise religiosa da Igreja Católica, com o surgimento de um Antipapa, em 1378 - Clemente VII em Avignon, que reclamava o poder do Papa Urbano VI em Roma, entre outras coisas, danificaram o até então vigoroso desenvolvimento das peregrinações a Santiago.

Elías Valiña - Revitalizador do Caminho no séc. XX

Uma das figuras mais importantes no ressurgir das peregrinações modernas a Santiago foi o Pároco de OCebreiro - Elías Valiña - que também pôs de novo no mapa esta ligação de montanha, um dos pontos altos do Caminho Francês. Natural de Sarria, dedicou ao Caminho de Santiago a sua tese de doutoramento, apresentada em Salamanca em 1965. Quando Valiña começou a promover a Rota Jacobeia estava intransitável em vários pontos. Dedicou então todo o seu esforço a convencer os autárcas e párocos, e a apelar para o associativismo voluntário (ao qual implicava a tarefa de marcar o percurso), através da elaboração e difusão dos seus famosos "Boletines del Camino de Santiago" - uma espécie de newsletters artesanais que enviava a todos os que via potenciais contribuidores.

Empreendeu no trabalho de sinalização do Caminho Francês com setas amarelas entre 1970-80, símbolo atual da Rota Jacobeia por três razões: em primeiro lugar pela boa visibilidade; em segundo, porque do país gaulês, de onde provinha grande número dos romeiros, o amarelo ainda não era utilizado entre as cores que sinalizavam outras rotas de pedestrianismo; e em terceiro, porque lhe foi doada tinta que se empregava na marcação de estradas, e que era dessa cor.

Foi a convicção visionária e esforço pessoal do Pároco Valiña que guiaram milhares de peregrinos a Santiago de Compostela, numa fase moderna da peregrinação, tendo realizado para o efeito uma completa cartografia da RotaJacobeia, até ao momento da sua morte, em dezembro de 1989. O projeto foi então continuado pelo seu sobrinho José Valiña e uma escritora e historiadora londrina erradicada em OCebreiro.

Atribui-se a Goethe dizer que Europa nasceu peregrinando a Compostela e que o cristianismo é a sua língua materna, o que independentemente da autoria desta proposta, explica bem o que o papa João Paulo II referiu, quando se dirigiu à Europa no Ato Europeísta decorrido em Santiago de Compostela em 1982: “Volta a encontrar-te. Sê tu mesma. Descobre as tuas origens. Aviva tuas raízes…” e “o cristianismo foi no nosso continente um fator primário de unidade entre os povos e as culturas e de promoção integral do homem e dos seus direitos”.
E não ficou dúvida de que essas raízes estavam desde sempre ligadas a Santiago de Compostela.

É no seio dessa sensibilidade que se pode entender que, em 11 de Março de 1987, o Conselho da Europa apele à identificação e revitalização dos Caminhos de Santiago, por serem altamente simbólicos no processo de construção europeia, e que vieram a ser declarados Primeiro Itinerário Cultural Europeu em 1987, e Património Mundial da Humanidade da UNESCO, primeiro o Caminho Francês em 1993 e o Caminho do Norte e Caminho Primitivo em 2015.
É curioso constatar que o Ano Santo de 1993 também coincidiu com a plena entrada da "Acta Única" que configurou uma nova Europa sem fronteiras, situação preludiada, como todo o mundo reconhece, pelo fenômeno atribuído aos europeus da peregrinação a Compostela.

Susana Sousa - Delegada AEJ de Faro

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